QUEM FOI WLADIMIR HERZOG?

O assassinato de Herzog mudou o país,
esse fato será sempre a recordação dolorosa
de um sombrio período de repressão.


Vlado Herzog nasceu em Osijek, na Croácia (à época parte da Iugoslávia), em 27/06/1937, filho único de um casal judeu: Zigmund e Zora Herzog. Os pais, fugindo do nazismo que varria a Europa, sob os avanços do III Reich de Hitler, refugiaram-se na Itália, onde viveram escondidos numa cidadezinha do interior. Por volta dos 9 anos de idade, Vlado chegou ao Brasil, vindo da Itália, acompanhado dos pais. Foi criado em São Paulo e se naturalizou brasileiro.


Em 1961, formou-se em Filosofia, pela USP (Universidade de São Paulo). No final da década de 60 começou a carreira de jornalista, no jornal “O Estado de São Paulo”.


No início da década de 60, casou-se com Clarice. Com o golpe militar de 1964, o casal resolveu passar uma temporada na Inglaterra e Vladimir conseguiu trabalho na BBC de Londres. Lá, tiveram dois filhos, Ivo e André. Em 1968, a família voltou ao Brasil. Vlado trabalhou um ano em publicidade, depois na editoria de cultura da revista Visão. Nesta época, Vlado achava que o nome soava exótico nos trópicos e resolveu passar a assinar Vladimir. Em 1975, foi escolhido pelo Secretário de Cultura de SP, José Mindlin, para dirigir o jornalismo da TV Cultura.


Em 1971 elaborou uma extensa reportagem de capa para a revista sobre os problemas das TVs educativas no Brasil. Em 1973 passou a trabalhar como secretário do jornal "Hora da Notícia" na TV Cultura e em seguida assumiu o cargo de diretor do departamento de telejornalismo. Nesta função começou a colocar em prática seu conceito de "responsabilidade social do jornalismo". Defendia que a TV Cultura tivesse um jornalismo profissional que não fosse "servil" ao estado e que mais do que "educativo" ou "cultural", fosse "público". Para Herzog, o jornalismo não deveria propor um "monólogo", mas um "diálogo com a sociedade", que superasse todo tipo de "paternalismo" e incorporasse "os problemas, esperanças, tristezas e angústias das pessoas às quais se dirige". Em 1975, enquanto buscava implementar suas idéias de um "jornalismo público", Vladimir Herzog foi chamado para depor no prédio do DOI-CODI, na rua Tutóia, para prestar esclarecimentos sobre o seu envolvimento com o Partido Comunista Brasileiro.


Já era fim de noite de sexta-feira, 24 de outubro de 1975. Vladimir Herzog dirigia o telejornal noturno da TV Cultura (Canal 2) quando dois personagens estranhos entraram na redação. Eram agentes da polícia e tinham ordem de levá-lo naquela mesma noite para o DOI-CODI. Ele já esperava ser preso, pois colegas seus de trabalho estavam detidos por participarem de discussões políticas organizadas em sua casa. Sua detenção era uma questão de tempo e parecia que tinha chegado a hora. Enquanto os dois agentes conversavam com ele, Paulo Nunes, jornalista da emissora que cobria a área militar, ligou para o coronel José Barros Paes, chefe da 2ª Seção do Estado-Maior do II Exército. Pediu que Vlado pudesse se apresentar no dia seguinte pela manhã. Ficou acertada a apresentação dele às 8 horas do sábado.


Vlado despediu-se confiante dos colegas do Canal 2: “Amanhã vou até lá, presto um depoimento e pronto. Não tenho nada a esconder.” Era um sábado. Ele se despediu da mulher, Clarice, e saiu de casa com um amigo, dirigindo-se ao local onde funcionava o aparelho mais brutal de repressão da ditadura militar instalada no país desde abril de 1964. Ali se torturava e até matava adversários ou supostos adversários do regime.


Paulo Nunes dormiu na casa do Herzog na véspera da ida dele para o DOI-CODI. Nunes acompanhou Vlado até o bairro Paraíso, onde ficava o prédio do Destacamento. Fez isso a pedido de Rui Nogueira, diretor do Canal 2, e de Clarice Herzog, mulher de Vlado. Às 6h30 da manhã, Vlado acordou. Levantou-se, fez a barba, tomou banho e depois deu um beijo na mulher que ainda estava deitada. Parecia calmo. Clarice quis se levantar para fazer o café, mas ele não deixou. Os dois se despediram sem imaginar que o faziam pela última vez. No caminho, Vlado, que era judeu, contou para Nunes histórias de torturas e perseguições nazistas vividos por sua família na Europa.


No DOI-CODI, Herzog e Nunes foram recebidos por um guarda que exigiu os documentos de identidade. Pelo interfone, o guarda conversou com alguém e em seguida avisou apontando para o Herzog: “Você fica e você vai”. Eram 8 horas da manhã e a partir daquele momento ele teria de prosseguir sozinho. Às 10 horas, Nunes telefonou para o coronel Paes e avisou que Herzog já estava no DOI. Na conversa, Paes afirmou que ele não era importante para a investigação. E para não interromper o trabalho no Canal 2, seria liberado provavelmente naquele mesmo dia tão logo fosse ouvido. Nunes ligou às 3h da tarde para Clarice e deu a notícia que mais tarde não se confirmaria: “Seu marido está bem e deve retornar antes do anoitecer”.


Passava das 5h30 da tarde de sábado, 25 de outubro de 1975. Clarice, mulher de Herzog, perdera a esperança de ter o marido de volta naquele dia. Ela havia esperado até perto das 6 da tarde para contar à sogra, dona Zora, sobre a prisão do filho. Achava que seria melhor para a sogra ouvir a notícia da boca dele, quando já estivesse solto. Às 6 da tarde ela contou a dona Zora que Herzog tinha ido depor no DOI. Tentou suavizar a notícia. Explicou que ele havia sido intimado na sexta e autorizado a se apresentar só no dia seguinte. Que esse tipo de regalia não era comum e que muitos outros jornalistas amigos dele também estavam presos.


Dona Zora balançou a cabeça discordando e profetizou: – Vão matar o Vlado. Herzog era o único filho de dona Zora. Mãe judia e viúva há três anos, ela viu parte de sua família ser exterminada pelos nazistas. Quando Herzog tinha seis anos, ela e o marido fugiram da Iugoslávia para a Itália e depois para o Brasil. A notícia de que o filho estava preso reavivou antigas e amargas lembranças dela. Dona Zora farejou a morte.


Às 10 horas da noite do dia 25 de outubro de 1975, o diretor do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e amigo pessoal de Herzog, Fernado Pacheco Jordão, recebeu uma ligação estranha. Era uma companheira de profissão da Rede Globo querendo marcar um encontro para tratar de um assunto urgente em um bar na Praça da República, em São Paulo. Ele não levou a sério e respondeu que estava ocupado. Menos de dez minutos depois, ligou Hélio Oliveira, editor-chefe do Jornal Nacional. – ‘Fernando, uma notícia triste para lhe dar, o Vlado morreu. O Lang (jornalista da Rede Globo que cobria a área militar) ligou agora há pouco e disse que o II Exército está preparando uma nota oficial dizendo que o Vlado se suicidou.” Pacheco Jordão perdeu a voz por alguns segundos. Às 11 da noite do dia 25 de outubro de 1975, tocou a campainha na casa de Herzog. Era o diretor da TV Cultura, Rui Nogueira. Clarice, mulher de Herzog, havia telefonado para ele duas horas antes e ele lhe dissera que precisava vê-la naquela noite. Nogueira estava acompanhado de Armando Figueiredo, assessor de imprensa da Secretaria de Cultura, e de mais quatro homens que Clarice não conhecia. – Olha, as coisas se complicaram – disse Nogueira sem levantar o tom da voz, assim como quem se prepara para dar uma má notícia. – Como assim se complicaram? – perguntou Clarice, nervosa. Amando Figueiredo olhou para Nogueira que estava visivelmente constrangido. Queria dar a notícia, mas só conseguia repetir que as coisas haviam se complicado. Foi então que Clarice desconfiou do que acontecera.


– Mataram o Vlado. Eles mataram o Vlado – gritou. A campainha tocou novamente. Era Fátima, mulher de Fernando Pacheco Jordão. Ele já sabia da morte e havia alertado a mulher para procurar Clarice. Chorando muito, Clarice informou à amiga sobre a morte do marido. – Eles mataram o Vlado – repetiu. E era tudo o que ela conseguia dizer. No dia 25 de Outubro de 1975, Vladimir Herzog, então com 38 anos, foi encontrado morto, supostamente enforcado, nas dependências do 2º Exército, em São Paulo. no dia seguinte à sua morte, o comando do Departamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), órgão de repressão do exército brasileiro, divulgou nota oficial à imprensa informando que Herzog cometera suicídio na cela em que estava preso. Segundo essa versão oficial da época, ele teria se enforcado com o cinto do macacão de presidiário. Porém, de acordo com os testemunhos de Jorge Benigno Jathay Duque Estrada e Leandro Konder, jornalistas presos na mesma época no DOI/CODI, Vladimir foi assassinado sob tortura. Quando intimaram Herzog no dia 24, 11 jornalistas já estavam presos no DOI-CODI: Sérgio Gomes, Marinilda Marchi, Frederico Pessoas da Silva, Ricardo de Morais Monteiro, José Póla Galé, Luiz Paulo da Costa, Anthony de Cristo, Paulo Sérgio Markun, Diléia Markun, George Duque Estrada e Rodolfo Konder. A maioria deles tinha ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
O aparelho de repressão do regime havia aniquilado com as demais organizações clandestina de esquerda que pegaram em armas contra a ditadura. O PCB não pegou. Defendia o enfrentamento pelos meios legais – ou quase isso. Nem por isso foi tolerado.
Rodolfo Konder estava num banco de madeira a poucos metros da porta de entrada da sala onde Vlado foi torturado e pôde acompanhar a agonia do colega: “Vladimir estava lá, sentado numa cadeira, com capuz enfiado e já de macacão...” Após ser submetido a choques elétricos e depois de ter-se recusado a confirmar o que os investigadores queriam ouvir, Vlado acabou por admitir finalmente que todos os meses dava uma quantia em dinheiro para o Partido Comunista (PCB) e que recebera exemplares do Jornal Voz Operária.
Garncieri, o principal carrasco, continuou a sessão de pancadas até que Vlado não suportou mais e decidiu escrever um depoimento de próprio punho, como era de praxe no DOI-CODI, admitindo ser militante do PCB: “Eu, Vladimir Herzog, admito ser militante do PCB desde 1971 ou 1972, tendo sido aliciado por Rodolfo Konder”. Uma vez assinado o documento, num gesto de indignação Vlado rasgou o papel em pedacinhos.
Daí em diante foi torturado até não agüentar mais. Eram quase 5 horas da tarde quando ele sucumbiu de vez às torturas. De acordo com os jornalistas que a tudo escutavam, “a partir de determinado momento, a voz de Vladimir se modificou,com se tivessem introduzido alguma coisa em sua garganta. Sua voz ficou abafada, como se lhe tivessem posto uma mordaça. Mais tarde, os ruídos cessaram”. Como Herzog era judeu, o Shevra Kadish (comitê funerário judaico) recebeu o corpo e, ao prepará-lo para o funeral, o rabino percebeu que havia marcas de tortura no corpo do jornalista, prova de que o suicídio tinha sido forjado. Em 1978, o legista Harry Shibata confirmou haver assinado o laudo necroscópico da vítima - na qualidade de segundo perito - sem examinar ou sequer ver o corpo. No dia 31 de outubro de 1975, foi realizado um culto ecumênico em memória de Herzog na Catedral da Sé, do qual participaram 8.000 pessoas, num protesto silencioso contra o regime. Em 1978, a Justiça responsabilizou a União por prisão ilegal, tortura e morte do jornalista. Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu que Herzog foi assassinado e decidiu conceder uma indenização para sua família.A morte de Herzog foi um marco na ditadura militar (1964 - 1985). O triste episódio paralisou as redações de todos os jornais, rádios, televisões e revistas de São Paulo. Os donos dos veículos de comunicação fizeram um acordo com os jornalistas. Todos trabalhariam apenas uma hora, para que os jornais e revistas não deixassem de circular, e as emissoras de rádio e televisão continuassem com suas programações. Enquanto durou, de abril de 1964 a março de 1985, o regime militar produziu pelo menos 3,5 mil vítimas entre mortos, torturados, presos e banidos. Os três anos que antecederam a cena descrita na nota abaixo foram os mais brutais. Em 1972, morreram 33 homens e 5 mulheres nos porões da ditadura e em confrontos de guerrilha urbana. No ano seguinte, 28 pessoas foram mortas. Em 1975 a imprensa entrou na mira do regime. Da nota oficial distribuída pelo comando do II Exército na manhã do dia 26 de outubro de 1975: “Cerca dás 16 horas, ao ser procurado na sala onde fora deixado desacompanhado, (Herzog) foi encontrado morto, enforcado tendo para tanto utilizado uma tira de pano. (...) As atitudes do senhor Vladimir Herzog, desde a sua chegada ao órgão do II Exército, não faziam supor o gesto extremo por ele tomado”. Ninguém acreditava na versão oficial de que Herzog havia se suicidado. Mas ainda não dera tempo de surgirem as evidências de que ele de fato fora torturado e morto.
O primeiro gesto daquelas pessoas foi o de aprovar a proposta de batizar com o nome de Vladimir Herzog o auditório onde acontecia a reunião. Depois, o jornalista David de Morais sugeriu a realização de um ato religioso ecumênico em memória de Herzog. O ato serviria para marcar o sétimo dia da morte do jornalista. Quem cuidou do enterro de Herzog foi a mãe dele, dona Zora. Ele era judeu e sua mulher, católica. A pedido de Clarice, a cerimônia foi marcada para a segunda-feira, 27 de outubro, ao invés do domingo, dia seguinte à morte, como desejavam os militares. Era para dar tempo de avisar às pessoas. O corpo foi velado no Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Seguindo as tradições judaicas, foi feito o serviço de Tahara (lavagem do corpo) numa sala do necrotério do hospital.
Clarice, nesse dia ainda, tentou fazer uma necrópsia do corpo do marido antes da Tahara. Mas ela precisava que três médicos assinassem o exame para ter alguma validade jurídica – e apenas um havia se disposto a assinar. A necrópsia poderia constatar as marcas da tortura. Herzog foi enterrado no túmulo 64 da quadra 28 do Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo, ao som dos cantos do músico judeu Paul Novak e do barulho das sirenes dos carros dos órgãos de repressão do regime. Quase 600 pessoas, entre jornalistas, estudantes, artistas e parlamentares testemunharam o enterro. A Congregação Israelita foi pressionada para enterrar Herzog o mais rápido possível. A pressa foi tanta que quando Dona Zora, mãe do jornalista, chegou ao cemitério o caixão já estava sendo coberto por terra. Um ritual de enterro judaico costuma durar 2 horas em média. O de Herzog não durou 15 minutos. Clarice ficou revoltada. A cerimônia foi marcada pela incerteza se o túmulo estava em local reservado para suicidas. O rabino-mor Fritz Pinkuss informou depois que o corpo de Herzog fora enterrado em área reservada para suicidas. Na semana seguinte, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo, o rabino Henri Sobel, que estava no Brasil há 5 anos, desmentiu a informação e garantiu que a quadra 28 do Cemitério Israelita era reservado a pessoas que tiveram morte natural. As duas únicas testemunhas das torturas sofridas por Herzog foram os jornalistas Rodolfo Konder e Duque Estrada, que também estavam presos no DOI. Ao encontrar dona Zora, mãe de Herzog, no enterro do amigo, Konder não se conteve. Abraçado a ela e aos prantos, ele acusou os militares: – Eles mataram o Vlado. Repetiu o que dissera Clarice ao saber da notícia. Depois que o caixão desceu à cova, Audálio Dantas, presidente do Sindicato dos Jornalista de São Paulo, declamou a poesia “Senhor Deus dos Desgraçados”, de Castro Alves, que a certa altura diz assim:

“Senhor Deus dos desgraçados,
Dizei-me Vós, Senhor Deus,
Se é mentira, se é verdade,
Tanto horror perante os céus”.

A atriz Ruth Escobar ensaiou um curto discurso: “Até quando vamos continuar suportando tanta violência? Até quando vamos continuar enterrando os nossos mortos em silêncio?” A ditadura militar durava há 11 anos. Duraria mais 10. Cinco dias após a morte de Herzog, a mídia foi obrigada a divulgar uma nota elaborada pelo Serviço Nacional de Informação (SNI) – o órgão de espionagem do regime criado pelo general Golbery do Couto e Silva, então ministro da Casa Civil do presidente Ernesto Geisel. A nota sustentava a tese de suicídio. Por ordem do SNI, foi divulgada sem que se indicasse o seu caráter oficial, e sem que se pudesse dizer quem a elaborara. Foi para funcionar, digamos, como uma espécie de editorial dos veículos de comunicação, para que as pessoas pensassem que era a opinião deles. “É por todos os motivos, profundamente lamentável o suicídio do jornalista Vladimir Herzog. Sua morte ocorre no contexto da crescente atividade desenvolvida pelo comunismo no Brasil, com sua ação de infiltração e de proselitismo. As chamadas “prisões em massa” constituem parte da técnica desenvolvida pelas organizações comunistas para neutralizar ou impedir a ação dos órgãos de segurança. Não há “prisões em massa”, e sim prisões legais, para identificar e aprofundar os dados disponíveis sobre a ação comunista. Situam-se dentro do quadro de combate a subversão, que motivou a nota circular do Ministério da Justiça.”
Na mesma quarta-feira em que o SNI soltou para a imprensa a nota sobre a morte de Herzog (leia abaixo), o líder do governo no Senado, Petrônio Portela, defendeu os atos do regime:
– O governo prende e prenderá quantos estiverem envolvidos nas malhas da subversão (...) O Estado está vigilante e ativo em sua defesa, usando os mecanismos da lei para que tenhamos paz (...) A repressão é absolutamente necessária. O senador Leite Chaves, da oposição, pediu um aparte a Portela e acusou a repressão militar pela morte do jornalista.
– O Exército é uma instituição respeitada pelo povo e que deveria ser intocável (...) “Hitler, quando desejava praticar atos ignominiosos, como os que estamos presenciando, não se utilizava do Exército, mas sim das forças SS, a polícia secreta alemã que praticou inúmeros crimes durante a Segunda Guerra mundial. (Em abril de 1964, Portela era governador do Piaui e foi um dos poucos governadores a se opor ao golpe militar deflagrado no dia 31 de março em Minas Gerais pelo general Mourão Filho. Depois aderiu. Quanto a Mourão Filho, esse se referiu a si mesmo como “vaca fardada”, desgostoso com os rumos do regime.) No dia 30 de outubro, o general Ednardo d`Ávila Mello, comandante do II Exército, mandou instaurar um Inquérito Policial-Militar (IPM) para apurar “as circunstâncias em que ocorreu o suicídio do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do Destacamento de Operações de Informações do centro de Operações de Defesa Interna do II Exército”. O IPM deixou claro o objetivo do regime de responsabilizar Herzog por sua própria morte. Ele poderia ter sido aberto para apurar “as circunstâncias em que ocorreu a morte do jornalista”. Mas, não: foi aberto para apurar “as circunstâncias em que ocorreu o suicídio” de Herzog. O regime não era nada sutil e não se preocupava em ser. Tinha a força das armas ao seu lado. O Culto Ecumênico, que havia sido marcado em reunião no Sindicato dos Jornalistas, aconteceu no dia 31 de outubro de 1975, na Catedral da Sé, em São Paulo. O clima era de muita insegurança. A morte de Herzog serviu para fazer estremecer o governo Geisel. Qualquer tumulto que viesse a ocorrer durante o ato religioso daria fôlego à linha dura do regime que resistia à idéia de redemocratização do país. Geisel defendia uma abertura política “lenta, segura e gradual”, mas admitia torturas e até assassinatos para defender a ditadura. O culto contou com a presença dos dois líderes religiosos mais odiados pelos militares
– Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal Arcebispo de São Paulo, e Dom Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife. Participaram também o pastor protestante James Wright e o rabino Henry Sobel. O nome de Dom Hélder fora banido da mídia por ordem da censura. Nada podia ser dito a respeito dele – nem mesmo contra ele. Era como se ele tivesse morrido ou desaparecido. Mais de 500 policiais foram escalados no dia do Culto Ecumênico para montar 385 barreiras armadas pela cidade de São Paulo. Era a Operação Gutemberg. Em alguns bairros, o trânsito foi delimitado por cones e a passagem de carros se tornou difícil. Em outros locais, carros da polícia travavam as ruas. A operação policial tinha o único objetivo de impedir o acesso do público à Catedral da Sé. Mesmo assim, oito mil pessoas compareceram. Muitas delas foram fotografadas e filmadas à distância por agentes da repressão dirfarçados de jornalistas. Quem foi à Catedral da Sé passou por um teste de fogo. A polícia estava nas redondezas, pronta para agir. Do lado de fora da catedral, agentes policiais provocavam quem chegava e quem ía embora. Filmavam e fotografavam. Às 16h, a catedral estava lotada. O culto começou com atraso para que o pastor Jaime Wright pudesse chegar. Ele havia ficado mais de 4 horas preso nas barreiras montadas pela polícia. Os veículos de comunicação foram proibidos de divulgar qualquer notícia sobre o culto. Na sexta-feira 19 de dezembro de 1975, foi divulgado o resultado do Inquérito Policial-Militar instaurado para apurar as circunstâncias que cercaram “o suicídio” de Herzog. O IPM concluiu que Herzog havia se enforcado com um cinto. Em janeiro de 1976, o procurador Oscar Queiroz do Prado pediu o arquivamento do inquérito. Em seu parecer, considerou “uma irregularidade administrativa” a presença de um cinto no macacão de um preso. Do parecer: “Não podemos deixar de lamentar a inadvertida entrega ao então investigado de um macacão com cinto, com o qual ele se enforcou, o que para nós constitui irregularidade administrativa, dado o perigo que pode oferecer”. Depois que conheceu o resultado do IPM sobre a morte de Herzog, um grupo de jornalistas escreveu o documento “Em nome da verdade”. Assinado por 1.004 jornalistas de São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre, o documento contestava as conclusões do IPM.. Os principais pontos do documento, mais tarde remetido à Justiça Militar: Não havia cinto no macacão que Herzog foi obrigado a vestir tão logo chegou ao prédio do DOI-CODI. Os macacões usados pelos outros presos eram iguais ao dele – e não tinham cinto. A ausência de cinto era para prevenir um possível suicídio. A posição da cadeira supostamente usada por Herzog para se pendurar na cela e em seguida se suicidar não permitiria tal ação. Na fotografia oficial de Herzog enforcado, a cadeira está na frente do corpo, em primeiro plano. Deveria estar atrás caso a cena fosse verdadeira. O pescoço de Herzog apresentava duas áreas roxas, o que caracteriza morte por estrangulamento. Para que a tese do suicídio prevalecesse deveria haver uma única marca. De resto, o laudo de exame do corpo que concluiu pelo suicídio foi assinado por dois legistas – mas um deles, depois, admitiria não ter examinado o corpo.
Vladimir Herzog tinha dois filhos quando foi morto. Ivan, na época com nove anos, e André com sete. No dia 20 de abril de 1976, Clarice e os dois filhos entraram na Justiça com uma ação declaratória responsabilizando a União pela tortura e morte de Herzog. Era a primeira vez que havia uma ação desse tipo na história da Justiça brasileira. E seria o primeiro de uma série de casos de vítimas da ditadura a serem julgados por um Tribunal Civil. Dois anos depois, a vitória da verdade – por mais brutal que a verdade tenha sido. Em 27 de outubro de 1978, exatos três anos depois do dia do enterro de Herzog, o juiz Márcio José de Morais, da 7a. Vara da Justiça Federal de São Paulo, proferiu sua sentença. Ele declarou a União responsável pela prisão, tortura e morte de Vladimir Herzog. Considerou imprestável o laudo médico-legal que amparava a versão oficial. E terminou afirmando que as autoridades não conseguiram provar que a morte foi por suicídio.




Este texto está baseado em informações colhidas nos endereços abaixo:


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